Conceitos básicos: Boca

Boca é definida como a largura máxima de um casco. Normalmente apresenta-se nas especificações dois valores: boca máxima e boca na linha d’água. Isso porque, normalmente, a boca na linha d’água é menor do que a boca máxima, por causa da curvatura e inclinação da borda, e ela é um dos elementos que define a estabilidade inicial do barco (por enquanto vamos ignorar a quilha).

Como definir o valor ideal da boca de um barco é um tema que envolve muitos fatores. Vamos rever rapidamente a evolução histórica dos veleiros para entender mais sobre o tema. Os veleiros antigos (vamos tomar um exemplo mais ou menos  conhecido, o classe Brazil da Sparkman & Stephens, projetado para o mercado sulamericano em 1953) eram notavelmente estreitos em relação ao seu tamanho. O classe Brazil tinha pouco mais de 3m de boca, para um comprimento de 40 pés (apenas 28 pés de linha d´agua, entretanto). Hoje, um veleiro de 28 pés tem boca maior do que isso. Se você olhar o layout interno dele, vai ver que era distribuído longitudinalmente. Um veleiro de projeto moderno, entretanto, pode oferecer as mesmas acomodações em menos de 30 pés de Loa.

Porém, o mais importante é entender porque esta mudança. Quando começaram a ser produzidos veleiros de fibra de vidro no início dos anos 60, o mercado mudou radicalmente. Na verdade, começou, porque antes vela era um hobby caro de gente rica, e os barcos eram feitos sob encomenda, projetados para iate-clubes, em geral em madeira de lei. A partir da fibra de vidro entraram em ação as forças do mercado, e aí passou-se a projetar barcos tendo em vista metas de vendas, o que significava redução de custos, preços mais competitivos, e veleiros que pudessem oferecer mais por menos. Então, logo os projetistas passaram a fazer barcos mais largos, que tinham duas vantagens: melhores acomodações em menor espaço, e capacidade de carregar mais área vélica com menos lastro (estabilidade de forma, ou de desenho). Os dois fatores reduziram o custo dos veleiros, já que lastro é caro (não envolve apenas o material do lastro, mas toda a estrutura necessária para suportá-lo) e com menor comprimento, ainda menos material era consumido, sem falar em tempo de produção, mão de obra, etc.

Mas esta mudança tem consequências: estabilidade de desenho é uma faca de dois gumes, pois um veleiro que tem boca muito larga (veja por exemplo os modernos veleiros de regata) é quase tão estável de cabeça para baixo quanto em pé. Porém, veleiros estreitos que dependem quase que exclusivamente do lastro para sua estabilidade são extremamente instáveis quando virados, e por isso são capazes de desvirar quase que instantaneamente, evitando que água em demasia entre na cabine e comprometa a flutuação e estabilidade.

Veleiros muito largos como os VOR70 dependem quase que exclusivamente da habilidade de sua tripulação para se manter loonge do perigo quando cruzam, por exemplo, o cabo  Horn. Veleiros como o Colin Archer 32 pés, projetado como barco de resgate no final do século 19, tem pouca estabilidade inicial (o lastro precisa de uma alavanca para fazer efeito) mas a medida em que aderna fica progressivamente mais estável, tanto é que basta um brisa mais forte para fazer sua borda tocar a água. Porém, para adernar mais do que isso, é preciso de uma tempestade.

Boca também tem efeito sobre a velocidade. Em cascos de deslocamento puro, uma boca menor em relação ao deslocamento e comprimento favorecem maior velocidade, já que menos energia é necessária para empurrar a água ao redor do casco. Um exemplo radical são os catamarans. Com cascos 7 vezes mais longos do que largos (às vezes mais) podem atingir velocidades de mais de 15 nós, mesmo barcos de menos de 26 pés. Porém, barcos de regata modernos que tem popa muito larga, valores elevados de boca em relação ao comprimento, e calado baixo (calado do corpo de canoa, bem entendido). Isso porque, com ventos fortes (popa, em geral) podem entrar em regime de planeio, e atingir velocidades muito maiores do que as limitadas pelo seu comprimento em regime de deslocamento. Assim, seus cascos se comportam como os de lanchas.

Como vemos, a tendência atual de se aumentar a boca nos veleiros tem muito mais a ver com a necessidade mercadológica de enfiar mais acomodações no mesmo comprimento (mais beliches, banheiro, etc), e envergar maior área vélica (para regatas), do que critérios de estabilidade. Veleiros que pretendem viajar para além da linha do horizonte devem, preferencialmente (não sou só eu que digo, leiam John Vigor), ter cascos mais estreitos, mais estabilidade de lastro, e armações mais distribuídas longitudinalmente para um centro de esforço mais baixo. Por isso, barcos de desenho clássico, com quilhas longas e pesadas, e armações como a carangueja, ainda são opções muito marinheiras, mesmo que não sejam vistas com frequência nos nossos mares.

 

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