Neste artigo vamos explorar um pouco as consequências dos conceitos apresentados na parte um deste artigo, no que se refere a estabilidade, uma das características mais importantes que buscamos num veleiro. Em primeiro lugar, yacht designers definem estabilidade de duas formas: estabilidade estática e estabilidade dinâmica. Estabilidade estática depende em grande medida dos valores dos coeficientes apresentados no primeiro artigo. Vejamos:

  • Centro de carena: Como vimos,  o centro de carena muda de posição a medida em que o barco aderna. Cascos largos de pouco calado vão apresentar deslocamento maior do centro de carena para determinado ângulo de inclinação. Assim sendo, oferecem maior resistência a adernagem, devido ao maior braço de alavanca formado pela distância horizontal entre o centro de gravidade e o centro de carena. Assim, barcos de boca larga e baixo calado, como os veleiros de regata e daysailers, tem o que se chama de estabilidade de desenho.
  • Metacentro: o metacentro é uma medida da estabilidade inicial de um veleiro, ou seja, a resistência ao movimento de rolagem. O metacentro é um ponto encontrado pelo cruzamento da linha que passa, verticalmente, pelo centro de carena do barco quando adernado, e o plano vertical longitudinal do barco. Quanto mais alto o metacentro, mais estável o casco. Mas estamos falando de estabilidade inicial.
  • momento de restituição do Pequeno Príncipe 135Variação do momento de restituição:  Uma forma de visualizar a estabilidade de uma embarcação é analisar o gráfico de momento de restituição em relação com ângulo de inclinação. Como vimos, a medida em que o barco aderna, há um deslocamento do centro de carena. A distância, no plano horizontal, entre centro de carena e centro de gravidade forma um braço, no qual atua o peso do barco, gerando um momento que tende a colcoar o casco novamente na posição de repouso. Este momento varia com o ângulo, com o deslocamento, e com a forma do casco e com a posição vertical do centro de gravidade. Veja o gráfico ao lado: Quando o barco está na posição de repouso e o centro de gravidade e de carena no mesmo plano vertical, não há momento algum. A medida em que o barco aderna (ângulos na linha das abcissas), o centro de carena se desloca e a atuação do peso sobre o braço de restituição gera um momento crescente, que atinge seu maior valor quando a inclinação é de 45 graus. Na inclinação de cerca de 110 graus o momento volta a ser zero, ou seja, centro de gravidade e centro de carena estão novamente alinhados, e a partir deste ponto, o momento de restituição é negativo, ou seja, atua de forma a manter o veleiro de cabeça para baixo.
  • O gráfico acima mostra duas coisas: a primeira, é que o veleiro pode inclinar até 110 graus sem risco de capotar. Por si, já é um ponto positivo, já que a medida que a inclinação se aproxima de 90 graus, a força do vento sobre as velas tende a ser pequena demais para virar o barco. Outro dado importante do gráfico é a relação entre a área sob a curva na parte positiva do gráfico de momentos e na parte negativa. A área é proporcional à energia necessária para produzir o deslocamento angular indicado. A relação entre a área negativa e a área positiva dá uma idéia da capacidade do barco de se recuperar de uma capotagem. Quanto menor a área negativa em relação a área positiva, melhor, pois significa que o barco tem uma tendência muito maior de retornar de uma capotagem naturalmente, já que a energia necessária para capotar o barco é muito maior que a necessária para desvirá-lo.
  • O centro de gravidade tem grande influência sobre a estabilidade terminal de um veleiro (estabilidade próxima do limite a partir do qual ele vai, com certeza, capotar). Quanto mais baixo, maior o momento de restituição em ângulos elevados. Barcos como os projetados por Colin Archer tem cascos com pouca estabilidade de desenho, para oferecer mais conforto aos tripulantes, mas muita estabilidade de lastro, para oferecer segurança. Veleiros de regata tem muita estabilidade de desenho, para manter as velas próximo da vertical, posição em que tem melhor rendimento, sem necessidade de muito lastro, para reduzir peso.

Na próxima parte deste artigo vamos desenvolver outro aspecto da estabilidade de veleiros, muitas vezes negligenciada: a estabilidade dinâmica.